“A festa em tempos de crise é mais necessária do que nunca. A gente não brinca, canso de repetir isso, e festeja porque a vida é mole; a turma faz isso porque a vida é dura.” SIMAS, L.A. 2022
O carnaval aqui é lido como uma metáfora materializada das contradições urbanas cotidianas, revelando, em seu corpo habitado, as inúmeras cidades que coexistem no Rio de Janeiro e que disputam os territórios físicos subjetivados.
De um lado, a ‘ditadura’ da especulação imobiliária e processos de gentrificação contínuos, incansáveis; do outro, o “outro”. Realidades paralelas que se cruzam na luta cotidiana pelo direito à moradia, ao trabalho e à cultura, se encaram. A rua, então, torna se um espaço de celebração e conflito em um show de conteúdos críticos que despretensiosamente ou não, educa e orienta, anualmente, a cultura brasileira. Expressa a importância de se preservar a memória cultural enquanto libera os impulsos inerentes às mutações do agora.
A cidade, nesse contexto, não é apenas cenário, mas um sujeito-corpo. Os muros, paredes, postes e calçadas, servem de suporte para a expressão dos anônimos, que dão personalidade e movimento, portanto vida, para a cidade estática que nos habita e que habitamos. Como propõe Milton Santos, é a partir do cotidiano e sua materialidade que se pode compreender as relações entre espaço e movimentos sociais, entre controle e possibilidades, entre limite e convite para a ação e transformação.
No entanto, a promessa de espaço ocupado no carnaval, frequentemente se revela ilusória. Processos de exclusão são mascarados por discursos de exclusividade, sustentados por preconceitos que distorcem o próprio conceito de direito à cidade. A presença de pessoas em situação de rua, por exemplo, é muitas vezes percebida como incômoda, levando à sua invisibilização, assim como no dia a dia. As soluções que reforçam a segregação e privilégios são naturalizadas, assim como no dia a dia, como se fosse possível esconder desigualdades estruturais.
Nesse contexto, surge o contraditório “carnaval enlatado”: uma versão controlada e mercantilizada do evento, que substitui o festejo popular, democrático, tudo junto e misturado, por espaços-bolhas, padronizados e nichados, que atendem à uma demanda capitalizada. A cultura negra, outrora e agora perseguida, a figura central e criadora do carnaval, torna-se, por vezes, a coadjuvante de sua própria criação.
Cabe questionar o papel do poder público nesse processo. Em um contexto de avanço de políticas neoliberais e de retração do Estado, observa-se um afrouxamento na proteção e democratização da cultura. A mercantilização se intensifica, enquanto direitos básicos, como acesso à saúde, à cultura e aos serviços urbanos, permanecem desigualmente distribuídos. Em uma macrovisão, a crise ambiental vem à tona, quando evidencia a interdependência de todos os seres, desafiando a lógica individualista que sustenta essas desigualdades.
Claro que o poder público tem um papel de mediador das diversas realidades coexistentes. Porém, já que estamos optando por reduzir seu poder e participação, é também papel de cada indivíduo (CPF, CNPJ, sindicatos, organizações etc.) a sensibilização e contribuição comunitária, a partir dos seus pontos até onde sua ‘vista’ alcança. É nesse ponto que o conceito de alteridade urbana se torna fundamental para aprofundar a visão. Conviver e respeitar a diversidade é dever de todos, pela vida de todos. Em um artigo chamado ‘Nise da Silveira, Fernando Diniz e Leon Hirszman: política, sociedade e arte’, ao relatar sobre as pesquisas de Nise da Silveira, Melo traz a explicação de empatia:
“Na empatia o sujeito transfere para o objeto conteúdos subjetivos. Isto se dá num ambiente onde o sujeito se encontra feliz e confiante, sendo senhor dos objetos que, ao se encontrarem esvaziados, são preenchidos pelo efeito da projeção. “(MELO, 2010).
Na cultura e na arte que se manifestam nas brechas da cidade “oficial”, uma outra cidade se insinua: opaca, intensa e muito viva. Nela habitam aqueles que resistem à invisibilização, os sujeitos ordinários que escapam à lógica da assepsia urbana promovida por projetos ditos revitalizadores. Esses “outros urbanos” não apenas sobrevivem, mas produzem narrativas, experiências e formas de existir que desafiam o modelo dominante de cidade. Essa perspectiva dialoga com o urbanismo feminista, que propõe uma cidade construída a partir do diálogo, da escuta e da diversidade. Pensar uma cidade para todos implica reconhecer diferentes corpos, tempos e necessidades, valorizando a convivência e a equidade como princípios-base do espaço urbano.
Na ausência de empatia das inter-relações de poder surge a precariedade e o abandono, os espaços vazios a serem preenchidos com a tal empatia, e que por fim produzem em si uma cidade do improviso. A invisibilização dos problemas urbanos e humanos deixa espaço em aberto para o trabalho inacabado da gambiarra eterna. O improviso do morar, do viver, do trabalhar, do sorrir e chorar, dormir e acordar, do sobreviver: a “gambiarra”, deixa de ser exceção e se torna regra cotidiana em constante construção, marcada pela incompletude.
Essa condição, por outro lado, revela também um campo fértil de invenção e um poderoso fluxo de criatividade, que o carnaval do Rio de Janeiro estampa nesta semana gloriosa de verão. E nele a rua serve como espaço efêmero de alegria genuína, mais que necessária para a cura de todas as loucuras individuais e coletivas. O carnaval com suas provocações, se torna então, um método da medicina psiquiátrica para toda a sociedade brasileira. A nossa Rua D’alegria.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
JACQUES, Paola B. Elogio aos Errantes. Salvador: editora UFBA, 2012.
JACQUES, Paola B. Estética da Ginga: a arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiti cica. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 200
MARICATO, Ermínia. Para entender a crise urbana. São Paulo: Expressão Popular, 2015.
MELO, Walter. Nise da Silveira, Fernando Diniz e Leon Hirszman: política, sociedade e arte. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103 65642010000300011&script=sci_arttext.
MUXÍ, Z. Que es el urbanismo feminista. Arch Daily, 2018. Disponível em: https://www.archdaily.co/co/893072/que-es-el-urbanismo-feminista
SANTOS, Milton. Técnica Espaço Tempo – Globalização e meio técnico-científico informacional. São Paulo: Hucitec, 1994.
SIMAS, Luiz Antonio. O corpo encantado das ruas. Ed. Civilização Brasileira, 2022.Rio de Janeiro, RJ.


