sábado, 21 de março de 2026

CARNAVAL: A RUA D’ALEGRIA



 “A festa em tempos de crise é mais necessária do que nunca. A gente não brinca, canso de repetir isso, e festeja porque a vida é mole; a turma faz isso porque a vida é dura.” SIMAS, L.A. 2022 


 O carnaval aqui é lido como uma metáfora materializada das contradições urbanas cotidianas, revelando, em seu corpo habitado, as inúmeras cidades que coexistem no Rio de Janeiro e que disputam os territórios físicos subjetivados. 

 De um lado, a ‘ditadura’ da especulação imobiliária e processos de gentrificação contínuos, incansáveis; do outro, o “outro”. Realidades paralelas que se cruzam na luta cotidiana pelo direito à moradia, ao trabalho e à cultura, se encaram. A rua, então, torna se um espaço de celebração e conflito em um show de conteúdos críticos que despretensiosamente ou não, educa e orienta, anualmente, a cultura brasileira. Expressa a importância de se preservar a memória cultural enquanto libera os impulsos inerentes às mutações do agora. 

 A cidade, nesse contexto, não é apenas cenário, mas um sujeito-corpo. Os muros, paredes, postes e calçadas, servem de suporte para a expressão dos anônimos, que dão personalidade e movimento, portanto vida, para a cidade estática que nos habita e que habitamos. Como propõe Milton Santos, é a partir do cotidiano e sua materialidade que se pode compreender as relações entre espaço e movimentos sociais, entre controle e possibilidades, entre limite e convite para a ação e transformação. 

 No entanto, a promessa de espaço ocupado no carnaval, frequentemente se revela ilusória. Processos de exclusão são mascarados por discursos de exclusividade, sustentados por preconceitos que distorcem o próprio conceito de direito à cidade. A presença de pessoas em situação de rua, por exemplo, é muitas vezes percebida como incômoda, levando à sua invisibilização, assim como no dia a dia. As soluções que reforçam a segregação e privilégios são naturalizadas, assim como no dia a dia, como se fosse possível esconder desigualdades estruturais. 

 Nesse contexto, surge o contraditório “carnaval enlatado”: uma versão controlada e mercantilizada do evento, que substitui o festejo popular, democrático, tudo junto e misturado, por espaços-bolhas, padronizados e nichados, que atendem à uma demanda capitalizada. A cultura negra, outrora e agora perseguida, a figura central e criadora do carnaval, torna-se, por vezes, a coadjuvante de sua própria criação. 

 Cabe questionar o papel do poder público nesse processo. Em um contexto de avanço de políticas neoliberais e de retração do Estado, observa-se um afrouxamento na proteção e democratização da cultura. A mercantilização se intensifica, enquanto direitos básicos, como acesso à saúde, à cultura e aos serviços urbanos, permanecem desigualmente distribuídos. Em uma macrovisão, a crise ambiental vem à tona, quando evidencia a interdependência de todos os seres, desafiando a lógica individualista que sustenta essas desigualdades. 

 Claro que o poder público tem um papel de mediador das diversas realidades coexistentes. Porém, já que estamos optando por reduzir seu poder e participação, é também papel de cada indivíduo (CPF, CNPJ, sindicatos, organizações etc.) a sensibilização e contribuição comunitária, a partir dos seus pontos até onde sua ‘vista’ alcança. É nesse ponto que o conceito de alteridade urbana se torna fundamental para aprofundar a visão. Conviver e respeitar a diversidade é dever de todos, pela vida de todos. Em um artigo chamado ‘Nise da Silveira, Fernando Diniz e Leon Hirszman: política, sociedade e arte’, ao relatar sobre as pesquisas de Nise da Silveira, Melo traz a explicação de empatia:

“Na empatia o sujeito transfere para o objeto conteúdos subjetivos. Isto se dá num ambiente onde o sujeito se encontra feliz e confiante, sendo senhor dos objetos que, ao se encontrarem esvaziados, são preenchidos pelo efeito da projeção. “(MELO, 2010). 

Na cultura e na arte que se manifestam nas brechas da cidade “oficial”, uma outra cidade se insinua: opaca, intensa e muito viva. Nela habitam aqueles que resistem à invisibilização, os sujeitos ordinários que escapam à lógica da assepsia urbana promovida por projetos ditos revitalizadores. Esses “outros urbanos” não apenas sobrevivem, mas produzem narrativas, experiências e formas de existir que desafiam o modelo dominante de cidade. Essa perspectiva dialoga com o urbanismo feminista, que propõe uma cidade construída a partir do diálogo, da escuta e da diversidade. Pensar uma cidade para todos implica reconhecer diferentes corpos, tempos e necessidades, valorizando a convivência e a equidade como princípios-base do espaço urbano.

Na ausência de empatia das inter-relações de poder surge a precariedade e o abandono, os espaços vazios a serem preenchidos com a tal empatia, e que por fim produzem em si uma cidade do improviso. A invisibilização dos problemas urbanos e humanos deixa espaço em aberto para o trabalho inacabado da gambiarra eterna. O improviso do morar, do viver, do trabalhar, do sorrir e chorar, dormir e acordar, do sobreviver: a “gambiarra”, deixa de ser exceção e se torna regra cotidiana em constante construção, marcada pela incompletude.

Essa condição, por outro lado, revela também um campo fértil de invenção e um poderoso fluxo de criatividade, que o carnaval do Rio de Janeiro estampa nesta semana gloriosa de verão. E nele a rua serve como espaço efêmero de alegria genuína, mais que necessária para a cura de todas as loucuras individuais e coletivas. O carnaval com suas provocações, se torna então, um método da medicina psiquiátrica para toda a sociedade brasileira. A nossa Rua D’alegria. 


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA 

 JACQUES, Paola B. Elogio aos Errantes. Salvador: editora UFBA, 2012. 

 JACQUES, Paola B. Estética da Ginga: a arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiti cica. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 200 

 MARICATO, Ermínia. Para entender a crise urbana. São Paulo: Expressão Popular, 2015. 

 MELO, Walter. Nise da Silveira, Fernando Diniz e Leon Hirszman: política, sociedade e arte. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103 65642010000300011&script=sci_arttext. 

 MUXÍ, Z. Que es el urbanismo feminista. Arch Daily, 2018. Disponível em: https://www.archdaily.co/co/893072/que-es-el-urbanismo-feminista 

 SANTOS, Milton. Técnica Espaço Tempo – Globalização e meio técnico-científico informacional. São Paulo: Hucitec, 1994. 

 SIMAS, Luiz Antonio. O corpo encantado das ruas. Ed. Civilização Brasileira, 2022.Rio de Janeiro, RJ.  

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

chrisearch

 


A Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro, é o primeiro lugar do Brasil a receber uma usina protótipo que gera energia a partir dos resíduos sólidos urbanos.
O projeto, desenvolvido pela empresa privada Usinaverde S.A., é uma solução importante para o meio ambiente. Ao usar o lixo orgânico, a usina elimina as emissões de gases altamente tóxicos que contribuem para o efeito estufa e afetam a camada de ozônio,principalmente o metano e o gás carbônico. E ainda elimina outro produto altamente nocivo à natureza: o chorume, líquido escuro gerado nos lixões, que penetra no subsolo e contamina as águas. O projeto Usinaverde consiste na implantação de móduloscom capacidade de tratamento de 150 toneladas/dia de lixo coletado com geração efetiva de 3,2MW de energia elétrica, sendo 2,6 MW para venda. Cada módulo serácapaz de atender às necessidades de disposição final de resíduos de uma comunidade em torno de 180 mil pessoas, alimentando com energia elétrica cerca de 13.400residências (ou aproximadamente60 mil pessoas), se considerado o consumo médio de140 quilowats/mês. Em cinco anos, foram investidos mais de R$ 15 milhões no desenvolvimento de tecnologia, construção e operação do projeto Usinaverde. Atualmente, a usina vem operando em regime contínuo, tratando 30 toneladas/dia de lixo urbano e gerando 440kWh, que têm sido consumidos na própria unidade.
(Fonte:Saneamento Ambiental).
http://sanambiental.blogspot.com.br/2008/11/usina-no-fundo-vai-produzir-energia-do.html

A USINA MODELO:
http://www.usinaverde.com.br/modelo_usina.html